Por que ler ‘Uma leitura feminista da dívida’, de Luci Cavallero e Verónica Gago?
Um olhar feminista sobre a questão da dívida: livro-manifesto aborda a questão financeira a partir da perspectiva das mulheres, em suas multiplicidades
“Ir das finanças aos corpos”, este é o caminho que a socióloga Luci Cavallero e a cientista social Verónica Gago percorrem no livro Uma leitura feminista da dívida. Por meio de um olhar autêntico e revelador, as autoras miram com especial atenção os debates contemporâneos sobre a dívida, a partir sobretudo dos marcadores de raça, classe, gênero e localização.
Integrantes do coletivo feminista argentino Ni Una Menos, as autoras apontam que a dívida é responsável por levar grande parte das economias domésticas e familiares ao endividamento popular e, por consequência, à pobreza, além de permitir o controle e a punição dos corpos desobedientes, ou devedores. Para aprofundar a conversa, propõem que a questão financeira saia do campo abstrato e “ganhe corpo”, a fim de ser encarada em sua complexidade e, então, fazer revelar quais corpos são preferencialmente atingidos num mundo de desigualdades. Segundo Cavallero e Gago, as mulheres e os corpos feminizados como um todo são empurrados com maior intensidade à precariedade, tendo no endividamento um contributo central.
Lançado agora no Brasil em edição atualizada, o livro mapeia importantes discussões sobre a questão do endividamento na agenda feminista, mundo afora, com foco especial na América Latina. Para Cavallero e Gago, o encontro entre o feminismo e a questão da dívida reúne a crítica ao neoliberalismo e à violência patriarcal, revelando os entremeios dessa ligação. Dessa forma, tornam visível o debate sobre a violência financeira, com o intuito de transformá-lo num problema comum.
Como afirmam no livro, o movimento feminista tem tido importante papel em colocar problemáticas em conexão, inaugurando “cruzamentos, intersecções e vínculos subterrâneos” que passaram a compor um vocabulário coletivo. Dessa maneira, o movimento feminista tem ajudado a politizar a sociedade sobre questões antes minoritárias ou marginais, como é o tema da dívida, por exemplo, conectando a exploração da vida à economia mainstream. Mencionando mulheres lésbicas, trans, indígenas, negras e moradoras de favelas, as autoras tencionam mostrar como o tema do endividamento compõe um repertório de violências que vai do âmbito institucional ao financeiro, em vários pontos do globo, atingindo mulheres em seus múltiplos atravessamentos.
Para elas, a maneira como o “dispositivo da dívida aterriza” em territórios, economias, corpos e conflitualidades diversas é algo central e não secundário. Nesse sentido, “tirar a dívida do armário”, isto é, tirá-la do confinamento da vida privada e inseri-la no debate público e coletivo, apontando quais corpos são mais sobrecarregados e violentados, é uma atitude feminista. Como dizem Cavallero e Gago, dar corpo, voz e território à dívida, para examinar então os modos de desobediência que estão sendo experimentados em vários contextos, é um gesto feminista. Para elas, tirar a dívida do armário trata-se de um movimento político contra a culpa, contra “a abstração da dominação que as finanças querem exercer” e contra a “moral de boas pagadoras”, que torna as mulheres alvo preferencial da obrigação financeira.
Ademais, as autoras afirmam que as mulheres são, na verdade, credoras desse sistema, para o qual trabalham de graça por meio dos serviços de cuidado (dos filhos, da casa, dos mais idosos etc.). E que, assim sendo, não há nada o que pagar. Conforme pontuam, a inflação e a redução dos serviços públicos obrigam as famílias a se endividarem para poder sobreviver e, dessa forma, o sistema acaba por individualizar a responsabilidade pela reprodução da vida — algo do qual se beneficia duplamente: na exploração da mão de obra barata dos indivíduos em desespero e no enriquecimento pelos juros e taxações das pessoas endividadas.
Cavallero e Gago também chamam atenção para o fato de que, empurradas ao endividamento devido aos altos custos de manutenção da vida, as mulheres são mais facilmente aprisionadas a relações violentas e a trabalhos aos quais não gostariam de estar atreladas, ficando desprotegidas, à mercê das violências todas que recaem sobre corpos mais vulneráveis. Utilizando linguagem neutra muitas vezes no livro, Cavallero e Gago mencionam a todo momento travestis e mulheres trans, ainda mais estruturalmente vulneráveis frente às violências do mundo endereçadas às mulheres.
Nesse trajeto, refletem ainda sobre as formas atuais de exploração do trabalho, tanto no contexto dos trabalhos formais quanto no âmbito informal, igualando o trabalho a uma prisão à qual as pessoas endividadas estão inevitavelmente sujeitas. Dado que o feminismo integra uma luta por emancipação e libertação, as autoras perpassam essas dinâmicas de aprisionamento e de violência, nomeando-as na crítica aos instrumentos de exploração social, entre os quais enfatizam o mecanismo do endividamento.
Nessa direção, o livro aponta ainda para dinâmicas de desobediência, que também compõem o horizonte da luta feminista, com o objetivo de construir um futuro outro, sem as amarras da violência patriarcal, financeira e capitalista — que, como as autoras pontuam, andam de mãos dadas. Nesse ensejo, as autoras trazem ao livro o grito que ecoou em greves feministas na Argentina: “vivas, livres e sem dívidas nos queremos”.



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