Emancipação, mutação ou insistência da/na psicanálise? Eduardo Leal Cunha sobre Laurie Laufer
Eduardo Leal Cunha
Este livro apresenta Laurie Laufer ao leitor brasileiro, ainda que seu nome já seja conhecido por muitas e muitos de nós e que, de certo modo, nossas psicanálises já se conheçam. Diretora do Instituto de Humanidades, Ciências e Sociedades e professora da Universidade de Paris-Cité, ou seja, no comando de um dos últimos refúgios acadêmicos da psicanálise francesa, Laurie Laufer já orientou diversos doutorandos brasileiros e há pelo menos dez anos dialoga constantemente com um bom número de pesquisadores de diferentes regiões do nosso país.
Ela pode ser também conhecida por alguns impropérios que lhe foram dirigidos por Elizabeth Roudinesco, grande dama ou velha baronesa da psicanálise que, em um dos seus últimos livros, acusa Laufer de contaminar a universidade francesa e o legado freudo-lacaniano com o gênero, essa curiosa invenção americana, ou, pior, com teorias queer e com querelas identitárias.
Mas o que seu trabalho coloca em jogo e por que acreditamos que brasileiras, brasileiros e brasileires podem, ou mesmo deveriam, se interessar por este pequeno livro que toma a forma de manifesto e se constrói como uma série de provocações, quase sempre bem-humoradas? Não por acaso, já que o humor é marca especial de Laurie, a pessoa. O que nos dá pistas de como essa psicanálise que pretende emancipar-se implica um trabalho de elaboração teórica que se faz corporificado, encarnado, carregado de afetos, do sorriso à indignação.
O leitor encontrará, logo de partida, a distinção, ousada, entre uma psicanálise da mímica, da cópia e da imitação, e aquela do risco. Ao delinear o segundo caminho, que seria também emancipatório e subversivo, Laurie Laufer reconhece, portanto, os perigos envolvidos.
Estes, contudo, não seriam maiores do que aquele de ver a psicanálise perder sua força, quase sempre materializada em potencial de transgressão e desafio ao bom senso vigente. Mais ainda, de se conformar à eterna repetição das palavras dos mestres Freud e Lacan, espécie de compulsão presente em grande parte da história da psicanálise, demarcando fronteiras, muitas vezes bastante estritas, para as nossas teorias e práticas.
Por isso, tal distinção não é simples artifício retórico, ela nos diz algo do "estado epistemológico da psicanálise" e é com isso em mente que Laufer explora os transtornos que a desordem no gênero causou na psicanálise e nos psicanalistas.
O livro inicia, talvez inevitavelmente, pelo questionamento quanto à atualidade da psicanálise, passados mais de cem anos desde que Freud a inventou e setenta do momento em que Lacan pretendeu recriá-la, paradoxalmente, por meio de um retorno à origem.
Em sua História da psicanálise popular, Gabaron-Garcia menciona o risco dos psicanalistas se tornarem cães de guarda do capitalismo. Laufer nos apresenta outra figura, a do guardião do templo. De fato, a resistência de parcela significativa da comunidade psicanalítica à mudança, o modo como muitas vezes mostram os dentes aos que consideram inimigos ou infiéis, parece mesmo trazer consigo sempre algo de religioso e de violento.
Por falar em história, não custa citar um psicanalista brasileiro, Renato Mezan, responsável em grande medida pela descoberta de Freud pela filosofia brasileira, quando nos diz: afirmar que há história significa dizer que o novo, o inédito, o inesperado, a invenção, existem de fato, e que a psicanálise não pode ser apenas ou estritamente freudiana ou lacaniana, senão teria morrido com eles.
Por outro lado, lembrando Michel Foucault, uma de suas principais referências, que, no famoso texto sobre as luzes, diz recusar a chantagem iluminista, se colocando contra ou a favor da razão, Laufer se recusa a julgar a psicanálise, acusá-la ou defendê-la; quer, sim, transformá-la pela via da invenção. Foucault sabia muito bem que não existe a razão, como Laufer sabe que não pode haver a psicanálise.
Não se trata, portanto, apenas de se contrapor à recusa, frequente em grande parte do movimento psicanalítico, dos estudos de gênero e teorias queer, recusa efetivamente próxima do sentido estritamente psicanalítico do termo Verleugnung, que se traduz também como renegação ou, mesmo, desmentido. Trata-se, sobretudo, de propor formas de articulação entre a psicanálise e os estudos de gênero, que não a apropriação ou a formação de compromisso.
Será preciso, para tanto, reconhecer não apenas o lugar central das questões de gênero no debate psicanalítico contemporâneo, mas destacar o modo como os discursos LGBT, feminista e queer podem atuar como analisadores da psicanálise, do movimento e do pensamento psicanalíticos, indicando seus pontos cegos, seus impasses ou mesmo, em termos estritamente psicanalíticos, seus recalques e desmentidos. Afinal, tomar o gênero como sintoma da psicanálise não implica que seja o único, que outros sintomas e mecanismos defensivos não possam estar em jogo.
Esse é, hoje, um debate constante na França, mas que é também muito nosso, desta feita não por uma postura colonizada, mas, ao contrário, pelo lugar que hoje podemos ocupar nessas disputas. Afinal, emancipar a psicanálise significa também, para nós, brasileiros, emanciparmo-nos da tutela eurocêntrica, tratando nossos confrades de lá como pares de luta, com os quais, inclusive, podemos rir juntos da face austera e carrancuda de outros colegas, daqui como de lá.
Talvez seja interessante pensar, junto com Paul B. Preciado, de Dysphoria Mundi, que Laufer, com suas palavras, seu sorriso e sua fina ironia, inoculam a psicanálise, dentro e fora da universidade, com uma vacina.
Contra o quê? O leitor provavelmente terá sua própria resposta ao atravessar as três figuras da emancipação propostas a seguir: as faladoras do movimento feminista, Michel Foucault e os movimentos LGBTQIAP+. Se encontrará também a psicanálise desopilada desejada por Laufer, disso não posso dar garantias.
Por outro lado, em tempos de biopolítica, não seria de todo modo despropositado afirmar certo desejo imunitário da psicanálise, em sentido radicalmente distinto daquele implícito na ideia da inoculação lauferiana, aquela que nos vacinaria contra a repetição acrítica das palavras dos mestres. Tal desejo é, ao contrário, signo de uma irritabilidade epidérmica à mudança, ao novo, ao inédito. Signo, ao mesmo tempo, de um desejo de pureza que, para nós, brasileiros, muitas vezes se desdobra facilmente em desejo de brancura, de riqueza, de Europa.
Mas e se a Europa já não estiver satisfeita consigo mesma, se ela quiser, agora, transitar, aprender com o novo mundo, deixar-se seduzir por curiosas invenções americanas, sambar e sorrir com a gente? Há também coisas novas acontecendo no velho mundo e o pensamento sorridente de Laurie Laufer é uma delas.
Tal pensamento se conecta a uma psicanálise que evita assumir posições de autoridade, mas não se esquiva ao reconhecimento e ao debate das relações de poder — ou mesmo de dominação — que caracterizam não apenas seus dispositivos de transmissão e formação de analistas, mas a própria relação transferencial.
O texto é construído como diálogo permanente com outros autores, interrogando a própria ideia de autoria e colocando em ação uma máquina de pensamento que interroga a psicanálise atual, lhe propõe um futuro e desestabiliza nossa relação com a figura do mestre, ao se recusar a assumir uma posição solitária de saber e poder. Trata-se, sem dúvida, de conversa elegante, com diversos autores, na qual Laufer desempenha com destreza o papel de mediadora, indo um pouco além, torcendo palavras, deslocando sentidos e tornando não apenas possíveis, mas, sobretudo, potentes, diálogos entre nomes aparentemente distantes, como Jean Allouch e Monique Wittig.
Também não é difícil perceber, ao longo do texto, rastros do pensamento foucaultiano, muitas vezes de forma elegantemente discreta, embora não menos incisiva, como na articulação que podemos fazer entre a própria ideia de emancipação e a atitude crítica de Foucault, aquela arte da inservidão voluntária, que nos faz ser menos governados ou não governados desta ou daquela maneira.
Tal atitude crítica será vital se quisermos, de fato, uma psicanálise que saia da menoridade, que recuse a tutela patriarcal dos velhos senhores e senhoras, ou dos seus representantes na terra.
Tudo isso, sempre com um toque de ironia que deixa o texto — e a luta — mais leve ou mesmo mais engraçada. Afinal, o que está em jogo nesse projeto emancipatório de uma psicanálise inclusiva é também a proposta de que os analistas não se levem — ou as suas teorias — a sério demais.
Espero que vocês se divirtam e que, juntos, nos reinventemos, reatando com a subversão.



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