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O que há na experiência transidentitária que tanto nos mobiliza?

15 de set.
3 min de leitura

A psicanálise no divã: livro debate a maneira pela qual pessoas trans e suas experiências no mundo são vistas pela sociedade e pela psicanálise – e por que este debate importa


“O que há na experiência transidentitária que tanto nos mobiliza?” A questão do psicanalista Eduardo Leal Cunha é respondida em seu livro O que aprender com as transidentidades – Psicanálise, gênero e política, que trata de debater o olhar que a psicanálise (e também a sociedade em geral) tem lançado às pessoas trans e suas experiências.


Voltado ao que chama de psicanálise inclusiva, Leal Cunha constrói seu livro em torno da maneira pela qual psicanalistas têm lidado com experiências de dissidentes de gênero, que, para ele, têm sido majoritariamente vistos sob as lentes do estranhamento e do julgamento moral, sendo constantemente patologizados; isto é, vistos como seres desviantes. É no aceno de entrelaçar psicanálise, cultura e sociedade que o livro de Eduardo Leal Cunha se delineia, buscando novas trajetórias para tal encontro, com o intuito de fazer com que a psicanálise possa se posicionar devidamente frente a outras formas de subjetivação atualmente presentes no mundo.


Conforme o autor pontua, “transidentidades” foi um termo criado para abrigar as diferentes formas de dissidência no que diz respeito à divisão sexual (a exemplo de transgêneros, transexuais, travestis, intersexos, homens femininos e mulheres masculinas) e, assim, permitir que descrevam suas experiências as pessoas que não conseguem se submeter às identidades compulsórias, estabelecidas a partir de normas sociais. É uma forma de localizar sujeitos estigmatizados, escutá-los e “tomar a sério a sua fala”.


Segundo Leal Cunha, pessoas trans são comumente lidas pelos psicanalistas a partir do tripé da neurose, psicose e perversão, como se não estivesse em questão a produção de outras (múltiplas) formas de existência, capazes de romper com o binarismo de gênero, tendo, por isso mesmo, tanto a nos ensinar. Para o autor, o desconforto com o gênero com o qual somos identificados ao nascer, ou a recusa da divisão da humanidade em dois sexos (homem-mulher), que perpassam a experiência transidentitária, tocam em questões centrais sobre a maneira como nos posicionamos no mundo, como definimos e regulamos a maneira de viver juntos. E, por isso, para Leal Cunha, o tema tem tanto a nos aportar coletivamente e, também por isso, o assunto é constantemente malvisto, já que interroga os modos contemporâneos de relação consigo e com o outro.


Ademais, adentrando a compreensão política dessas existências, o psicanalista enfatiza ainda a visibilidade alcançada por dissidentes de gênero em sua busca por reconhecimento e garantia de direitos, o que amplia o debate e o torna cada vez mais presente na contemporaneidade, fazendo com que seja preciso encará-lo de maneira mais complexa.


Afinal, como Leal Cunha aponta, existe inclusive uma constante associação das experiências transidentitárias com o narcisismo e o Complexo de Édipo (que, na psicanálise, versa sobre o desejo à mãe e a função castradora do pai), de tal forma que se oferecem, assim, respostas homogêneas a questões e pessoas múltiplas.

Mas, conforme dito anteriormente, o livro não somente versa sobre psicanálise. O autor também vai à teoria queer, reflete sobre corpos e discursos (que perpassam, além de gênero, classe, raça e colonialidade) e, ainda, pondera sobre ciência e biopolítica, neoliberalismo e espetáculo.


De forma original, Leal Cunha entrelaça teoria, clínica e política, lança luz sobre experiências e sujeitos que fogem à norma e que, por isso mesmo, em vez de serem compreendidos como ameaça ao mundo vigente, sejam a “esperança radical na construção de um mundo melhor”, fazendo nascer um novo dia.


 
 
 

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